segunda-feira, 6 de abril de 2009

A história de um Zé

Lá pelo meio da década de 90 tive um marcante professor de Educação física. Homem forte, viril, com certos traços escandinavos, discorria sobre os mais diversos tópicos e assuntos da corrente atualidade. Grande homem. Seu nome era Zé. Entre muitas frases contundentes, uma me marcou em particular: “Reflexão é coisa de viado” Claro que meu sábio professor não se referia ao ato de refletir no espelho, mas sim a grande arte de examinar a própria consciência em busca de respostas. Para Zé, tudo isso não passava de “coisa de bichinha”. Homem que faz terapia, homem que procura saber o porquê das coisas, homem que tem depressão. Tudo bicha. Sem exceção. Alguns anos depois não consegui enxergar maldade nas palavras de Zé, muito menos ficar indignado com tais palavras. E mesmo hoje, quando lembro de tais frases, ainda as acho doces como quando no dia que as ouvi. Mas como? Até que me veio a luz. E que luz! Zé talvez tenha sido a pessoa mais feliz que conheci. Não consigo me lembrar de Zé uma vez sequer que não estivesse sorrindo. Nem que por vezes fosse apenas aquele discreto sorrir de canto labial. Zé dava broncas com imensos sorrisos no rosto, contava causos às gargalhadas e falava os mais absolutos impropérios com uma segurança e felicidade invejáveis. Eu adorava Zé. Criança não quer saber de ideologia, criança quer se sentir segura, criança quer ser feliz. E puxa vida, Zé era feliz. E fazia todos a sua volta ainda mais felizes. A beleza de Zé é não entender que mesmo para chegar a conclusão de que refletir é coisa de viado, ele refletiu, mesmo que ele não faça idéia disso.  Para ele, a vida era simples como o soar de seu apito, o viver era subjetivo como uma série de abdominais. Em nenhum momento Zé contestava sua vida, sua existência, ou mesmo seu trabalho. Zé sabia de tudo. Zé não sabia de nada. Puxa vida, como eu invejo Zé. Olhando a vida de maneira pragmática Zé foi feliz. Zé ainda é feliz. Saber o significado da vida é mais irrelevante pra Zé do que a fome em Serra Leoa. Não existe álibi melhor do que não conhecer. Zé não quer saber por que a terra gira, contanto que gire. E então, por que devemos saber? O objetivo da vida não é simplesmente viver? Por que devemos buscar repostas? Meu deus, como eu invejo Zé. A infelicidade é inerente ao saber, já dizia um tal brâmane. Zé é o meu brâmane.

 

 

2 comentários:

  1. Lindas histórias geram lindas reflexões. Pois bem, me sinto viado.

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  2. na maioria das vezes, a ignorância do Zé, travestida em felicidade, não nos é sufuciente.

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