segunda-feira, 27 de abril de 2009

Blábláblá

Quem é capaz de fazer um livro deixar de ser o número 54.000 na lista de um site de vendas e virar o mais procurado em questão de horas? Parece piada, mas em tempos de crise, o Hugo Chaves o fez. Evidentemente, o fato de o livro ter sido dado ao Obama é só um pequeno detalhe. O cucaracha conseguiu levar o livro que mais destrói, subverte, negativiza a imagem dos Estados Unidos ao top 10 entre os americanos.

Resta saber se os pretensos leitores conseguirão passar do primeiro dos vários capítulos lotados de números, fatos históricos, casos e pessoas que assustam e embrulham o estômago. A pergunta que não quer calar é o fim que será dado aos exemplares não lidos, conseguidos com tanto esforço: Por aquelas terras, livro em estante é out. Para pé de mesa há outros objetos. Em poucos dias, será possível adquirir o Open veins of Latin America: Five centuries of the pillage of a continent em qualquer sebo, loja de caridade e banco de doações a qualquer quarter. Os que escaparem da fogueira, é claro.

Na terra brasilis o processo vem sendo facilitado: o livros já vêm junto com a panela. Ou com a super vasilha de plástico, com a mamadeira fofíssima da turma da Mônica. Aqui, a utilidade doméstica do livro é bem mais explícita. Qualquer dona de casa pode comprar uma obra literária escrevendo o nome na revista! The secret & Jesus, o maior psicólogo que já existiu ao alcance de uma assinatura! A empresa Avon, das vendas por revista é a terceira maior vendedora de livros do país e vem conquistando a fatia das classes menos abastadas vendendo os Best Sellers a preço de banana. O segredo? Diminuir o tamanho da letra e retirar a capa dos famosinhos.

Portanto, quando quiser descobrir o mais novo sucesso, descobrir o volume de cabeceira do Luís Inácio é inútil. Pra adquirir as obras que abalam os quarteirões, não perca tempo e consulte já a sua Revendedora Avon!


Clarice Goulart.





domingo, 19 de abril de 2009

Para que o coração se eu tenho uma estrela?

Há algo mais irracional do ser humano do que torcer por um time de futebol? Deve haver, mas meu deus quanta carência do ser, torcer por homens que você nunca viu na vida, por um símbolo que não lhe diz muita coisa ou que de fato, não lhe diz nada. Eu tenho consciência disso. Mas de nenhuma forma isso me impede de ser apaixonado por meu time. Em mim, canta uma estrela, das mais alvinegras, do brilho mais solitário e solidário. Definitivamente não há nada de racional no que diz respeito a futebol. Perdão pela mesmice, mas futebol é só paixão. Eu não me recordo por que escolhi o Botafogo, mas hoje sei que não poderia ser outra coisa. Quando criança meu pai e irmão flamenguistas confundiam minha cabeça, mas até que enfim, me consolidei como alvinegro. Escolhi o branco em detrimento do vermelho - por que ter apenas uma cor, mesmo que a cor da paixão, se posso ter todas? Escolhi ser seleto no meio da massa. Escolhi ser diferente, no meio da multidão. Nunca foi mesmo meu, ser apenas mais um. E desde cedo parece que já sabia disso. Não preciso ter a maior torcida do mundo. Eu preciso me sentir único vestindo as minhas cores. Até por que, para que 40 ou 100 milhões de torcedores se no Maracanã de hoje, só cabem 90 mil? Eu sou diferente, eu tenho brilho próprio. E para mim, só existe um hino, um verdadeiro manto sagrado. E ele é preto e branco. Escrevo essas “mal traçadas linhas” rapidamente, em um espaço de 20 minutos, prestes a me dirigir ao Maracanã, para provavelmente ser engolido numericamente mais uma vez pelo rival. Pouco me importa, eu sou Botafogo. E quem é, sabe o prazer que é ser Botafogo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Há certas coisas na vida que simplesmente não se misturam. Feijão e sorvete, água e álcool, inteligência e ex- BBBs e por ai vai. A maior incompatibilidade da minha vida tem a ver com um dos itens acima postos. Eu e Big Brother Brasil não nos misturamos. É só colocar no canal 4 (19 para os malditos burgueses!) após a novela das 8 que uma certa  depressão me aflige. Muitos me acusam de ser pseudo-intelectual e dizem já ser um clichê dos pretensos sábios não gostar de Big Brother. Meu amigo, se for clichê não gostar de BBB eu sou uma comédia romântica das mais açucaradas. Daquelas que passavam na sessão da tarde tempos atrás. Simplesmente não consigo enxergar o fascínio que esse maldito programa exerce sobre as pessoas. A repulsa é tamanha que o único caso que consigo lembrar de trocar de canal mesmo com a abundância de mulheres belas e a falta de roupa, é com o programa. E olha que já me permiti assistir a genial Luciana Gimenez no Superpop. Mesmo porque, um frame é o tempo ideal para contemplação destas figuras, basta abrir a boca, a mais voluptuosa moça perde todo e qualquer potencial atrativo. E não venha me dizer que o Big Brother faz sucesso porque o Brasil é um país de miseráveis, pois isso não passa de uma grande farsa, BB é assistidíssimo entre as classes A e B assim como nas classes D e E. A burguesada (malditos, eles de novo) se delicia com a vida interessantíssima dos brothers. Na Europa, dar a maldita espiadinha ainda é moda. Ah, que decepção meus compatriotas intelectuais!

    O BBB me faz lembrar a minha doce tia Elisete. Mulher tímida, de poucas palavras, dona do olhar mais expressivo que já tive a oportunidade de cruzar. Tia Elisete é mulher letrada, doutora, inteligentíssima, mulher fina. E que cultura! Pois bem, Tia Elisete adora Big brother, até rasgar dinheiro com o BBB 24 horas ela fez. Quando preciso conceituar paradoxo, basta apenas explicar quem é minha tia e o seu programa predilecto. Elisete passa horas vendo o programa, assiste-os dormir, acordar, comer, malhar e todas aquelas coisas enriquecedoras.  Não conseguia entender como mente tão brilhante e olhar tão imponente podia se perder facilmente na tela em algo que para mim, é tão vazio. Ficava observando minha tia horas assistindo ao programa, pouco ou quase nada de reações se viam, em alguns momentos, apenas um ou outro sorriso. Mas o seu olhar, expressivo como poucos, me dizia tudo. Ela ama esse bendito programa.

    Objeto de estudo e análises, o fenômeno Big Brother é estudado constantemente. Muitos argumentos de pessoas extremamente bem articuladas já tentaram me convencer de alguns méritos do programa. Eles falharam. “Um estudo sobre o comportamento e a mente humana” eles disseram. Não acho necessário tranca fiar uma dezena de pessoas numa casa e expor ao mundo para se analisar pessoas. Estudos muito mais efectivos e sérios são feitos de maneira muito mais discreta, creio eu. “É interessante colocar pessoas que se deparam com as realidades da vida e ver suas reações” Me desculpe, mas não me lembro a ultima vez que eu fiquei numa jaula durante 20 horas pra poder comer, ou fiquei em pé em um toco para me tornar um líder de qualquer coisa que seja. Aí que me veio a pergunta, será que todos enxergam uma metáfora ao mundo real que escapa a minha percepção? Terá eu não percebido uma óbvia alegoria do mundo moderno escondido por de trás da superfície? Tentei analisar de uma maneira mais conotativa o que acontecia no programa. E foi ai que as coisas pioraram... Então quer dizer que o objetivo da vida é ser um líder soberano que manda pessoas para um paredão?! Paredão, que nome mais infeliz, inclusive. Me disseram que foi um participante que deu esse nome ao momento que duas pessoas são indicadas para sair. Imagino quem seja essa pessoa, o Augusto Pinochet talvez? Quer dizer ainda que o certo é fazer sacrifícios para comer. Malditas crianças da Somália, não se esforçam o suficiente.

 

Tomando a “nave” Big Brother como uma metáfora para a vida as coisas ficam ainda mais obscuras. Começo a pensar que tudo não passa de uma ode a ditadura e que as pessoas gostam é disso. Prefiro fechar os olhos, e ver o BBB apenas como um produto gigantesco que é, vazio e indigente, como diria meu querido pai.

   Se ao menos as pessoas fossem interessantes, tivessem algo para falar, talvez algo de bom pudesse ser tirado dali. Infelizmente, é querer demais, o desfile de pessoas ignorantes é constante e aparentemente, necessário. Inclusive, custo a acreditar em certas figuras, parecem personagens, daquelas saídas das piores telenovelas globais. Ao mesmo tempo, me vem também à cabeça, quem seria capaz de ser interessante 24 horas por dia durante 3 meses? Mahatma Gandhi ou Karl Marx talvez? Tendo a acreditar que até eles teriam momentos de extrema chatice. Normal, afinal, são seres humanos. Não posso deixar de imaginar uma cena de Gandhi e a expansiva Priscila tomando sol e conversando à beira da piscina ou mesmo Karl Marx decidindo os rumos da literatura e do socialismo com o renomado Jean Willis nas águas quentes do ofurô.

 

Depois de tanto divagar, e chegar a conclusão de que é impossível ser imune ao Big Brother (mesmo que você não veja, durante os primeiros 3 meses do ano, só se fala disso) e de que Pedro Bial é realmente um desperdício de inteligência, fui conversar novamente com minha querida Tia Elisete, e finalmente perguntei a ela o porquê do fascínio por BB. Sua resposta me encantou, mas em nada me surpreendeu. “Vendo BBB, tenho certeza de que sou inteligente”. Como não pensei nisso? É perfeito. Talvez seja o álibi perfeito. Até demais. O olhar de minha Tia Elisete ainda não me convenceu. Uma mulher com tamanha vivência e latis, precisa realmente de um programa para ter certeza de sua inteligência?  Não sei. Mas já sei qual será minha desculpa quando eu for pego vendo o canal 19 (sim, sou mais um daqueles malditos) depois da novela das 8.

A história de um Zé

Lá pelo meio da década de 90 tive um marcante professor de Educação física. Homem forte, viril, com certos traços escandinavos, discorria sobre os mais diversos tópicos e assuntos da corrente atualidade. Grande homem. Seu nome era Zé. Entre muitas frases contundentes, uma me marcou em particular: “Reflexão é coisa de viado” Claro que meu sábio professor não se referia ao ato de refletir no espelho, mas sim a grande arte de examinar a própria consciência em busca de respostas. Para Zé, tudo isso não passava de “coisa de bichinha”. Homem que faz terapia, homem que procura saber o porquê das coisas, homem que tem depressão. Tudo bicha. Sem exceção. Alguns anos depois não consegui enxergar maldade nas palavras de Zé, muito menos ficar indignado com tais palavras. E mesmo hoje, quando lembro de tais frases, ainda as acho doces como quando no dia que as ouvi. Mas como? Até que me veio a luz. E que luz! Zé talvez tenha sido a pessoa mais feliz que conheci. Não consigo me lembrar de Zé uma vez sequer que não estivesse sorrindo. Nem que por vezes fosse apenas aquele discreto sorrir de canto labial. Zé dava broncas com imensos sorrisos no rosto, contava causos às gargalhadas e falava os mais absolutos impropérios com uma segurança e felicidade invejáveis. Eu adorava Zé. Criança não quer saber de ideologia, criança quer se sentir segura, criança quer ser feliz. E puxa vida, Zé era feliz. E fazia todos a sua volta ainda mais felizes. A beleza de Zé é não entender que mesmo para chegar a conclusão de que refletir é coisa de viado, ele refletiu, mesmo que ele não faça idéia disso.  Para ele, a vida era simples como o soar de seu apito, o viver era subjetivo como uma série de abdominais. Em nenhum momento Zé contestava sua vida, sua existência, ou mesmo seu trabalho. Zé sabia de tudo. Zé não sabia de nada. Puxa vida, como eu invejo Zé. Olhando a vida de maneira pragmática Zé foi feliz. Zé ainda é feliz. Saber o significado da vida é mais irrelevante pra Zé do que a fome em Serra Leoa. Não existe álibi melhor do que não conhecer. Zé não quer saber por que a terra gira, contanto que gire. E então, por que devemos saber? O objetivo da vida não é simplesmente viver? Por que devemos buscar repostas? Meu deus, como eu invejo Zé. A infelicidade é inerente ao saber, já dizia um tal brâmane. Zé é o meu brâmane.