Há certas coisas na vida que simplesmente não se misturam. Feijão e sorvete, água e álcool, inteligência e ex- BBBs e por ai vai. A maior incompatibilidade da minha vida tem a ver com um dos itens acima postos. Eu e Big Brother Brasil não nos misturamos. É só colocar no canal 4 (19 para os malditos burgueses!) após a novela das 8 que uma certa depressão me aflige. Muitos me acusam de ser pseudo-intelectual e dizem já ser um clichê dos pretensos sábios não gostar de Big Brother. Meu amigo, se for clichê não gostar de BBB eu sou uma comédia romântica das mais açucaradas. Daquelas que passavam na sessão da tarde tempos atrás. Simplesmente não consigo enxergar o fascínio que esse maldito programa exerce sobre as pessoas. A repulsa é tamanha que o único caso que consigo lembrar de trocar de canal mesmo com a abundância de mulheres belas e a falta de roupa, é com o programa. E olha que já me permiti assistir a genial Luciana Gimenez no Superpop. Mesmo porque, um frame é o tempo ideal para contemplação destas figuras, basta abrir a boca, a mais voluptuosa moça perde todo e qualquer potencial atrativo. E não venha me dizer que o Big Brother faz sucesso porque o Brasil é um país de miseráveis, pois isso não passa de uma grande farsa, BB é assistidíssimo entre as classes A e B assim como nas classes D e E. A burguesada (malditos, eles de novo) se delicia com a vida interessantíssima dos brothers. Na Europa, dar a maldita espiadinha ainda é moda. Ah, que decepção meus compatriotas intelectuais!
O BBB me faz lembrar a minha doce tia Elisete. Mulher tímida, de poucas palavras, dona do olhar mais expressivo que já tive a oportunidade de cruzar. Tia Elisete é mulher letrada, doutora, inteligentíssima, mulher fina. E que cultura! Pois bem, Tia Elisete adora Big brother, até rasgar dinheiro com o BBB 24 horas ela fez. Quando preciso conceituar paradoxo, basta apenas explicar quem é minha tia e o seu programa predilecto. Elisete passa horas vendo o programa, assiste-os dormir, acordar, comer, malhar e todas aquelas coisas enriquecedoras. Não conseguia entender como mente tão brilhante e olhar tão imponente podia se perder facilmente na tela em algo que para mim, é tão vazio. Ficava observando minha tia horas assistindo ao programa, pouco ou quase nada de reações se viam, em alguns momentos, apenas um ou outro sorriso. Mas o seu olhar, expressivo como poucos, me dizia tudo. Ela ama esse bendito programa.
Objeto de estudo e análises, o fenômeno Big Brother é estudado constantemente. Muitos argumentos de pessoas extremamente bem articuladas já tentaram me convencer de alguns méritos do programa. Eles falharam. “Um estudo sobre o comportamento e a mente humana” eles disseram. Não acho necessário tranca fiar uma dezena de pessoas numa casa e expor ao mundo para se analisar pessoas. Estudos muito mais efectivos e sérios são feitos de maneira muito mais discreta, creio eu. “É interessante colocar pessoas que se deparam com as realidades da vida e ver suas reações” Me desculpe, mas não me lembro a ultima vez que eu fiquei numa jaula durante 20 horas pra poder comer, ou fiquei em pé em um toco para me tornar um líder de qualquer coisa que seja. Aí que me veio a pergunta, será que todos enxergam uma metáfora ao mundo real que escapa a minha percepção? Terá eu não percebido uma óbvia alegoria do mundo moderno escondido por de trás da superfície? Tentei analisar de uma maneira mais conotativa o que acontecia no programa. E foi ai que as coisas pioraram... Então quer dizer que o objetivo da vida é ser um líder soberano que manda pessoas para um paredão?! Paredão, que nome mais infeliz, inclusive. Me disseram que foi um participante que deu esse nome ao momento que duas pessoas são indicadas para sair. Imagino quem seja essa pessoa, o Augusto Pinochet talvez? Quer dizer ainda que o certo é fazer sacrifícios para comer. Malditas crianças da Somália, não se esforçam o suficiente.
Tomando a “nave” Big Brother como uma metáfora para a vida as coisas ficam ainda mais obscuras. Começo a pensar que tudo não passa de uma ode a ditadura e que as pessoas gostam é disso. Prefiro fechar os olhos, e ver o BBB apenas como um produto gigantesco que é, vazio e indigente, como diria meu querido pai.
Se ao menos as pessoas fossem interessantes, tivessem algo para falar, talvez algo de bom pudesse ser tirado dali. Infelizmente, é querer demais, o desfile de pessoas ignorantes é constante e aparentemente, necessário. Inclusive, custo a acreditar em certas figuras, parecem personagens, daquelas saídas das piores telenovelas globais. Ao mesmo tempo, me vem também à cabeça, quem seria capaz de ser interessante 24 horas por dia durante 3 meses? Mahatma Gandhi ou Karl Marx talvez? Tendo a acreditar que até eles teriam momentos de extrema chatice. Normal, afinal, são seres humanos. Não posso deixar de imaginar uma cena de Gandhi e a expansiva Priscila tomando sol e conversando à beira da piscina ou mesmo Karl Marx decidindo os rumos da literatura e do socialismo com o renomado Jean Willis nas águas quentes do ofurô.
Depois de tanto divagar, e chegar a conclusão de que é impossível ser imune ao Big Brother (mesmo que você não veja, durante os primeiros 3 meses do ano, só se fala disso) e de que Pedro Bial é realmente um desperdício de inteligência, fui conversar novamente com minha querida Tia Elisete, e finalmente perguntei a ela o porquê do fascínio por BB. Sua resposta me encantou, mas em nada me surpreendeu. “Vendo BBB, tenho certeza de que sou inteligente”. Como não pensei nisso? É perfeito. Talvez seja o álibi perfeito. Até demais. O olhar de minha Tia Elisete ainda não me convenceu. Uma mulher com tamanha vivência e latis, precisa realmente de um programa para ter certeza de sua inteligência? Não sei. Mas já sei qual será minha desculpa quando eu for pego vendo o canal 19 (sim, sou mais um daqueles malditos) depois da novela das 8.